Crítica – 1917

By Maykon Alves
In janeiro 23, 2020

Tendo como fundo a 1ª Guerra Mundial, 1917 é um espetáculo visual emocionante. O filme possui qualidades técnicas impressionantes. Somos conduzidos pela fotografia de Roger Deakins e nos tornamos soldados, imergidos no horror e tensão por toda nossa volta.

A PREMISSA

Dean-Charles Chapman (à esquerda) Sam Mendes (centro) e George MacKay (à direita) nas gravações do filme 1917.

O Filme começa em um campo tranquilo, no qual Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay) estão deitados sobre uma árvore, e logo são despertados e enviados para relatar ao seu comandante, que tem uma missão para eles: uma mobilização maciça de tropas britânicas, incluindo o irmão de Blake, sem saber estão entrando em uma armadilha alemã. Com as linhas telefônicas desligadas, cabe aos dois jovens soldados atravessar o território inimigo. O tempo é essencial e a jornada será repleta de perigos.

O Filme

Sam Mendes escreveu o roteiro do filme, juntamente com a Krysty Wilson-Cairns, levemente baseado em uma história contada por seu avô. A história em si é bastante simples, de forma que permitiu algo não tão comum: filmar de forma contínua, em um longo plano-sequência.

Além disso, o fato da câmera sempre seguir os soldados e muitas vezes filmar com ângulos baixos, faz com que nos tornemos uma espécie de terceiro soldado. Outro fator que esse tipo de filmagem faz, é nos impedir de ver totalmente o que está a frente ou acima das trincheiras, ou seja, faz com que não saibamos se há um perigo logo em sequência, da mesma forma que ocorre para os soldados em combate.

Assim, o filme se volta mais para um filme de ação ou drama, do que para retrato cuidadoso da 1ª Guerra Mundial, e o fato de estarmos sempre com o protagonista ao nosso lado, faz com que a ação e/ou elementos dramáticos sejam necessários para prender nossa atenção e seguir em frente.

O Tempo como inimigo

Dentro da premissa do filme, temos no filme um inimigo tão perigoso quanto os próprios alemães. O Tempo.  A ideia do plano-sequência contínuo é uma ideia ousada, que já foi usada em outros filmes como “Rope” e “Birdman”. Para conseguir isso foi preciso, além do trabalho brilhante de Roger Deakins, a edição excelente de Lee Smith, vencedor do Oscar pelo filme “Dunkirk”, ocultado os cortes que teriam acabado com esse efeito de plano sequência contínuo.

Entretanto, a história não se passa no tempo exato de duração do filme, assim tivemos dois momentos de transição, que foi necessário para fazer o tempo passar, o que acabou um pouco com essa magia da continuidade. Mas que foi necessário para seguir fielmente a história que foi escrita. Além disso, foi bom para que Roger Deakins, pudesse explorar uma paleta de cores diferente, ao usar a noite como plano de fundo.

O que poderia ter sido feito aqui, seria uma história que se passasse exatamente no tempo do filme, o que tornaria necessário uma direção mais ousada, de difícil execução e um roteiro brilhantemente escrito. Mas isso é somente um devaneio meu.

A Cinematografia de Roger Deakins

Roger Deakins nas gravações de 1917.

Um dos maiores diretores de fotografia do cinema e companheiro de longa data de Sam Mendes – seu 4º filme com o diretor – impressiona e mostra seu talento magistral neste filme. Roger Deakins é o grande nome de 1917. Ele usa os variados tons de marrom, proporcionando uma certa riqueza árida a paisagem.

A característica marcante do filme, o plano-sequência contínuo, é criado de forma a dar o ar de continuidade e imediatismo. A claustrofobia do início do filme, dentro das trincheiras até o sentimento de exposição e medo do que está ao redor, ao estar em ar livre.

Além disso, uma das características do Deakins não podia faltar. O uso do contraste de luz e sombra. Isso é ainda mais evidenciado nas cenas noturnas, que são iluminadas pelas explosões, o que torna este momento ainda mais sombrio.  A fotografia foi capaz de trazer uma beleza visual, em meio ao caos da guerra e do medo humano.

A luz e sombra na fotografia de Roger Deakins presente em 1917.

A Trilha Sonora de Thomas Newman

Sam Mendes (à esquerda) e Thomas Newman (à direita).

Outro aspecto técnico de destaque no filme, é a Trilha Sonora. Thomas Newman, outro companheiro de longa data de Mendes – sua 7ª colaboração com o diretor – faz um dos seus trabalhos mais brilhantes. Juntamente com a fotografia, ajuda a conduzir a história e aumentar ou diminuir o clima de tensão.

Em alguns momentos, a crescente partitura nos leva ao ápice de uma cena, em outros, o silêncio ou a trilha sonora suave, ajuda a deixar uma estranha calma no ar, que logo é quebrada, como se isso, fosse um prelúdio do caos.

Destaco duas cenas em que a trilha foi muito bem usada. A 1ª, no início do filme, em que os soldados chegam a linha de frente, esperando ver algum alemão dentro das trincheiras. A partitura foi se elevando e criando um clima de tensão que parecia levar a um momento de ação, porém foi apenas uma ilusão. A trilha aqui nos enganou e nos fez sentir aquela angústia de não saber o que estava por vir, aflição essa, que os soldados sentiram na pele.

E outra cena, mais no final do filme, em que, tendo em vista os inúmeros soldados dentro das trincheiras, Schofield sai de dentro dela e corre ao lado da mesma. Momento esse que os soldados saem em direção ao inimigo, e ele continua a correr e a trilha sonora deixa esse momento ainda mais impressionante , marcante e poderoso.

Um Filme Imersivo

Ao assistir 1917, é notável o trabalho do diretor Sam Mendes. Fazer um filme assim exige muito preparo e um olhar detalhista. O plano-sequência contínuo, é capaz de nos imergir dentro da guerra e daquela missão, na qual os soldados foram encarregados. Sentir o que os soldados podem ter sentido não é uma tarefa simples, mas o conjunto da obra, o filme 1917 como um todo, foi capaz de fazer isso. Por mais que não tenhamos tanto aprecio aos soldados, justamente por não termos sequer tempo para isso, retrata ainda mais o sentimento de quem está lá pessoalmente.

Sam Mendes possui muito mérito pelo trabalho e deve ser o principal nome ao Oscar de Direção, apesar de considerar o trabalho técnico, como: fotografia, trilha sonora e edição, com mais destaque do que sua direção.

Conclusão

1917 é um grande filme grandioso, imersivo e emocionante. Um pequeno vislumbre do que foi a guerra, conhecida pelas batalhas nas trincheiras. Mais do que isso, em alguns momentos vemos como tudo aquilo, que os soldados passam, pode não ser nada. Em determinada cena, o Coronel Mackenzie (Benedict Cumberbatch) diz que a ordem para não atacar, só seria algo momentâneo, que na semana seguinte a ordem já seria outra. Mostrando que na guerra, nada é definitivo.

Outro ponto que foi importante, foi a primeira e última cena. Na 1ª, vemos os dois soldados descansando embaixo de uma árvore. Na última, temos somente um deles, que depois de tudo que passou, pode enfim descansar embaixo de uma árvore, sozinho, tendo como companhia, somente uma fotografia, de sua família que lhe aguarda em casa.

Assim, 1917 não é um filme completamente histórico. Mas uma experiência cinematográfica impressionante, que nos leva para dentro da guerra, mesmo que por poucas horas e que mostra a dor e o horror que o ser humano, não somente passou, mas que foi capaz de fazer.

Qual sua nota para o filme?

“Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior” Uma frase que define muitos e a minha pessoa também. E mais do que isso, um publicitário contador de piadas ruins, apaixonado por café e uma boa cerveja. Uma pessoa excêntrica, com gostos peculiares e mais do que tudo, um fascinado pela 7ª arte.

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