Crítica – First Cow

By Maykon Alves
In setembro 26, 2020

O Oeste Americano é um território rico e cheio de histórias já exploradas pelas lentes de muitos diretores. Porém, a diretora Kelly Reichardt consegue nos apresentar no recente filme da A24, First Cow, uma história nova, mais poética e minimalista.

First Cow, retrata a vida de um solitário e cozinheiro, Otis ‘Cookie’ (John Magaro), que viajou para o oeste e se juntou a um grupo de caçadores de peles no Território de Oregon, embora ele só encontre conexão com um imigrante chinês, King-Lu (Orion Lee). Os homens colaboram em um negócio, embora sua longevidade dependa da participação da valiosa vaca leiteira de um rico proprietário de terras.

O Filme

A vaca ‘Evie’ em First Cow – A24

Logo no início do filme, somos apresentados a uma cena misteriosa, onde uma história é desenterrada e a partir deste fato, o filme remonta ao ano de 1820, onde nossos protagonistas estão ambientados.

Nosso primeiro protagonista é Otis, apelidado de ‘Cookie’, que é um cozinheiro de um grupo de caçadores. Ele encontra no caminho, um imigrante chinês, que está se escondendo por ter cometido um assassinato. Cookie o ajuda e mais tarde no filme, volta a reencontra-lo, onde a história começa a tomar um novo rumo. Uma amizade começa a surgir nos dois e King-Lu convida Cookie para ficar em seu barraco.

Cookie é um excelente cozinheiro e King-lu se mostra uma pessoa extremamente experta e perspicaz. O destino dos dois ganha um novo rumo com a chegada de uma personagem extremamente importante e a primeira a aparecer na região: uma vaca. Ela pertence a um rico comerciante britânico, que vive no luxo, enquanto todos os outros residentes moram em simples barracas.

Cookie resolve fazer bolinhos para vender, já que é algo que não se encontra na região. Mas, para prepará-los, ele precisa de leite. Assim, ambos vão até à casa do rico britânico e ordenham a vaca escondidos, à noite. Com isso, um próspero negócio começa. Mas até quando ele irá durar?

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First Cow é um filme que se desenvolve em um ritmo lento, simples, mas radiante. Ele pode ser representado pela palavra “amizade”, tanto pela relação construída entre nossos dois protagonistas, quanto pela relação deles, principalmente do Cookie, com a Vaca (creditada como Evie). E isso é evidenciado pela frase inicial do filme “O pássaro um ninho, a aranha uma teia, a amizade do homem”. – William Blake. Mas o filme vai além. Ele é uma crítica ao sistema capitalista, a desigualdade e o empreendedorismo.

A diretora Kelly Reichardt não fornece totalmente uma conclusão final. Talvez tudo o que vimos é apenas uma parte de algo maior. Ela fornece material para reflexões. Ela mostra como existem pessoas que lutam, mesmo em ambientes hostis, por um vislumbre de uma vida melhor.

John Magaro, Kelly Reichardt e Orion Lee
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First Cow, assim como outras obras da diretora, usa de uma proporção de tela mais “quadrada” – sendo que neste a proporção é 1.37 : 1 –. Esse é um elemento que contribui e dá maior destaque as emoções dos personagens e se encaixa perfeitamente ao filme. O ritmo lento do filme é acompanhando pela partitura suave de William Tyler, que dá uma emoção simples e contida ao filme. Todos os pequenos detalhes fazem com que o filme, que beira a um western, seja mais original em ritmos, iconografia e conceitos. Mais um grande mérito da diretora Kelly Reichardt.

Reichardt é extremamente talentosa, seja escrevendo ou dirigindo. Em First Cow, ela mais uma vez faz a parceria com Jonathan Raymond no roteiro e eles entregam uma história que trata de temas ligados ao nosso ambiente natural, por mais cruel que ele possa ser, além do horror que a humanidade pode ter, quando busca obter o controle do ambiente em que se encontra. Isso se deve ao fato de Reichardt ser uma naturalista, mas aqui, ele traz um humor bem leve, que equilibra a história.

As atuações principais são excelentes. Tanto John Magaro, quanto Orion Lee, abraçam seus personagens e com sutiliza e dramaticidade entregam atuações convincentes e de destaque.

Orion Lee e John Magaro em First Cow
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Assim, First Cow é um dos melhores filmes do ano. Com uma história reflexiva e sutil, vemos como sonhos simples podem ser totalmente destruídos. Como amizades improváveis são construídos em ambientes de onde não se espera absolutamente nada.

First Cow mostra que mesmo em um mundo em construção, as divisas sociais já estão firmes e podem destruir quem tenta passar por elas. Mas ainda assim, temos um conto comovente de amizade e sonhos.

Qual sua nota para o filme?

“Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior” Uma frase que define muitos e a minha pessoa também. E mais do que isso, um publicitário contador de piadas ruins, apaixonado por café e uma boa cerveja. Uma pessoa excêntrica, com gostos peculiares e mais do que tudo, um fascinado pela 7ª arte.

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