Crítica – O Gambito da Rainha

By Maykon Alves
In novembro 7, 2020

The Queen’s Gambit ou O Gambito da Rainha, a mais nova minissérie da Netflix é uma adaptação do romance harmônico de Walter Tevis. O livro foi alvo de várias tentativas de adaptação desde o seu lançamento, em 1983, mas sem sucesso. Quando foi lançado, ele foi muito elogiado, principalmente por seu exímio trabalho de exatidão do xadrez. E, antes de tudo, não, ele não é baseado em uma história real. Mas, naquele período muitos prodígios do xadrez, como: Bobby Fischer, Boris Spassky e Anatoly Karpov, fizeram sucesso com o público e serviram de inspiração para a criação do romance.

O Gambito da Rainha segue Beth Harmon (Anya Taylor-Joy), uma jovem garota na década de 1950, que é enviada para um orfanato em Kentucky após uma tragédia familiar. Enquanto está lá, a vida da jovem Beth muda de duas maneiras – ela começa a desenvolver uma predileção por duas coisas: o jogo de xadrez, que lhe é ensinado pelo zelador do orfanato e os tranquilizantes dados pelos funcionários do local.

A minissérie continua acompanhando Beth durante sua adolescência e até a idade adulta, conforme ela se propõe a ser uma das principais jogadoras no circuito de xadrez competitivo, dominado por homens. Ao longo do caminho, Beth deve lidar com como o xadrez influencia seu senso de identidade, sua relação com o vício e o trauma que ela suportou em quase todas as fases de sua vida.

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Anya Taylor-Joy a interprete de Beth Harmon com toda certeza é um dos maiores talentos do cinema dessa geração, com atuações marcantes e aclamadas pela crítica em filmes como A Bruxa, Fragmentado e Vidro. Anya vem mostrando que o seu potencial só vem crescendo. O Gambito da Rainha deixa isso a prova, a montanha-russa de emoções que a atriz nos apresenta é algo instigante, Beth Harmon não é nem de longe uma pessoa fácil de interpretar, o fato de a personagem ter problemas na infância já nos deixa a par do que Beth sofrerá no futuro.

Anya Taylor-Joy em “O Gambito da Rainha”

Somos apresentados ao seu maior vício, podemos dizer que, na verdade, é uma nítida obsessão pelo Xadrez, fazendo com que ela não seja uma pessoa muito amigável na maioria das vezes e acabe ferindo moralmente as pessoas com seu incansável modo de tentar conseguir chegar à perfeição. Beth sofre com o fato de não conseguir vencer seu maior medo que é o Mestre Vasily Borgov, jogador russo que é o atual campeão mundial de Xadrez, isso a leva a diversos modos de autossabotagem, primeiro são medicamentos, vicio que ela adquiriu ainda quando criança, depois o álcool, sendo esse último de longe o pior de todos para ela.

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A minissérie é excelente para quem joga ou se interessa por xadrez. Ela te instiga e cria uma conexão com a personagem principal, onde o jogo de xadrez é como uma conexão de sua vida particular. Mesmo que você não entenda nada de xadrez, não se preocupe, não é necessário para acompanhar o desenvolver da história. Um dos pontos mais positivos da minissérie é justamente ir “ensinando” o jogo.

A evolução de Beth no xadrez é acompanhada de sua evolução como pessoa, as mudanças no corpo, a sexualidade, sua relação com a mãe adotiva e assim há uma analogia entre o jogo e sua vida. Tudo está relacionado à cultura do período, o passado da personagem e seus relacionamentos. Os escritores da minissérie: Allan Scott, Scott Frank e William Trevis, ainda conseguem abordar questões importantes, para a época e até atualmente, como os papeis de gêneros isolados, alcoolismo, os vícios da infância, dentre outros. Ao mesmo tempo, é importante frisar que Beth está em um campo dominado por homens e a minissérie aborda a reputação dela, nesse meio, de forma muito eloquente, sem se pegar a fórmulas mais apelativas e já bastante exploradas.

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A minissérie é tecnicamente muito bonita e bem feita. A qualidade excepcional da “mise-en-scène” (aparência geral de uma obra, incluindo: iluminação, cenários, figurinos, etc) ajuda a conduzir o ritmo e contar a história do desenvolvimento de Beth, navegando por sua sexualidade e as circunstâncias externas que afetam o seu vício.

Um dos fatos que mais chamam atenção na série são os momentos em que tabuleiros de xadrez aparecem no teto, sem dúvida isso é usado para diferenciar ela dos demais, em uma certa conversa com Benny Watts (Thomas Sangster) ele chega a comentar se ela conseguia visualizar os jogos assim como ele, porém o interessante é ver que em nenhum momento é mostrado ele, mesmo sendo um gênio do xadrez fazendo esse tipo de visualização.

Tabuleiro de xadrez no teto, em uma cena da minissérie

Venho chamar atenção para o uso dessas cenas do xadrez no teto com a fotografia belíssima de Steven Meizler, principalmente no episódio final em que simplesmente é feita a união de todos os artifícios de edição, uma trilha sonora incansável feita por Carlos Riviera é tocada de fundo e é algo de arrepiar mesmo a quem não entende sobre o jogo de xadrez, deixar a cena em movimento sem fazer cortes por um bom tempo conseguiu colocar todo o charme do xadrez e dos personagens em um nível superior.

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Dentre os nomes coadjuvantes, destaco principalmente Marielle Heller, mais conhecida por dirigir filmes, como “Um Lindo Dia na Vizinhança” e “Poderia Me Perdoar?”, onde ela interpreta a mãe adotiva e a agente de Beth. Marielle entrega uma atuação comovente e facilmente identificável. Thomas Brodie-Sangster (Maze Runner, Simplesmente Amor, Nanny McPhee) e Harry Melling (O Diabo de Cada Dia, A Balada de Buster Scruggs, Harry Potter) são outros destaques. O elenco inteiro está magnético, mesmo personagens com pouco tempo de exposição, conseguem te encantar.

Thomas Brodie-Sangster | Marielle Heller | Harry Melling

O Gambito da Rainha ganha um posto dentre as melhores minisséries dos últimos anos, apresentando a nós como a junção da qualidade técnica consegue levar um conteúdo que pode abranger diversos públicos, mesmo aos que não entendem sobre o assunto principal. É uma série curta, com 7 episódios que sinceramente você não nota o tempo passando com a história que te prende o tempo todo. Está procurando algo rápido para assistir? Não perde tempo e corre na Netflix que vale muito a pena.

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Essa crítica foi feita em parceria com o Cayque Gomes, da página  Movie JPEG.  Acompanhe seu trabalho no  Facebook  e  Instagram

 

 

Qual sua nota para o filme?

“Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior” Uma frase que define muitos e a minha pessoa também. E mais do que isso, um publicitário contador de piadas ruins, apaixonado por café e uma boa cerveja. Uma pessoa excêntrica, com gostos peculiares e mais do que tudo, um fascinado pela 7ª arte.

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