Crítica: Palm Springs

By Maykon Alves
In julho 16, 2020

Surpreendente. Essa seria a palavra que poderia usar para descrever o filme Palm Springs.  O filme teve sua estreia em janeiro deste ano, no Festival de Sundance, logo após ele foi lançado em cinemas limitados pela distribuidora “Neon” e digitalmente no Hulu.

Antes de discorrer acerca das minhas considerações acerca do filme, devo avisar: esta crítica contém spoilers. Normalmente não falaria sobre isso, mas eu assisti o filme somente com a ideia de que se tratava de uma comédia romântica e ao ler o título da crítica do Waldemar Dalenogare, onde ele dizia ser uma das maiores surpresas do ano, fiquei pensando no que esperar do filme. Não li mais nada além do título de uma crítica. E ao assistir, me surpreendi com a forma que o filme foi executado dentro dos temas abordados. O próprio Dalenogare – ao assistir a crítica dele – diz que o melhor seria ver o filme sem saber nada dele e concordo plenamente.

Assista ao filme sem ter muitas informações sobre ele e você irá se surpreender, no que se diz repeito a várias decisões de roteiro, seja da forma que são tomadas e quando são tomadas. Depois volte aqui e veja nossa análise e vamos prosear um pouco sobre ele, que tal?!  😉 Mas se você não se importa com spoilers, continue conosco.

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A premissa básica do filme é sobre um homem, Nyles (Andy Samberg) um cara despojado, engraçado e que parece não se preocupar muito com a vida. E temos Sarah (Cristin Milioti) uma mulher que parece não ter certeza do que está fazendo de sua vida e que sente que é a ovelha negra da família. Eles estão em Palm Springs, tendo como único fator comum, um casamento. Eles se conhecem e rapidamente começam a se entender. Porém um evento estranho e as consequências provindas dele, mudam totalmente o casamento e suas próprias vidas.

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Bastidores de Palm Springs.

Confesso que Palm Springs me surpreendeu de várias formas.  Normalmente não sou de dar muitas risadas em filmes, nem mesmo em comédias e quando se trata de comédias românticas, que não é o meu gênero preferido, isso é ainda mais raro. Mas o filme com menos de 15 minutos, já me tirou umas risadas. Eu imaginava uma comédia romântica clássica, com o cara apaixonando pela garota, acontece algo que separa os dois, um perdoa o outro e no final eles voltam a ficar juntos. Mas Palm Springs aborda também um loop temporal.

Eu sei, não é algo incomum, filmes como “Groundhog Da – Feitiço do Tempo” (1993) e “Happy Death Day – A Morte Te Dá Parabéns” (2017), também se utilizam deste artifício. Mas o principal é como ele é usado dentro da história. Logo no inicio aparece um homem misterioso atirando flechas no Nyles, logo depois ele entra em uma caverna e a Sarah o segue e depois disso eles voltam ao mesmo dia, 09 de novembro. Após isso descobrimos que somente esses três sabem o que estão passando, por um loop temporal.

Parece muita informação, mas aos poucos vão se revelando detalhes no decorrer do filme. Primeiro o homem misterioso, chamado Roy (J. K. Simmons) descobriu esse loop e faz parte dele, por causa do Nyles e o culpa por isso. Então decide se vingar dele. O mais interessante aqui, é o fato dele só aparecer dentro da história novamente, só após mais da metade do filme, o que não foi um ponto negativo, pelo contrário, a história foi muito bem construída em torno do Nyles e Sarah, sem dar destaque a enredos secundários.

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Cena do filme Palm Springs

Para a história discorrer de uma forma mais natural, as personalidades dos personagens são fundamentais e nisso percebemos uma grande diferença entre o Nyles, já acostumado com tudo e não se importando com mais nada, e a Sarah, que possui pouca confiança em si mesma e que não quer ficar presa ali. Aos poucos eles vão aceitando aquela realidade e se conhecendo melhor, e claro, nós também vamos conhecendo-os.

 As personalidades distintas, os segredos dos personagens que você aos poucos descobre, fazem o filme discorrer sem te fazer perder o interesse na história e faz do loop temporal algo sem muita importância. O filme não vai te dar uma resposta sobre o porquê desse loop temporal, ou informações cientificas sobre. Palm Springs te faz pensar sobre o que você faria se soubesse que vive sempre o mesmo dia, afinal as outras pessoas não sabem disso, o que você faria naquela situação?

O filme muitas vezes traz esse questionamento que beira o existencialismo e niilismo, principalmente pelo personagem do Nyles. De certo modo, até me lembrou a série The Leftovers, que não foca no acontecimento em si, mas em como as pessoas reagem a ele. No filme vemos que Nyles não se importa com o amanhã, já a Sarah precisa do amanhã, como uma fuga dos erros do hoje, ou como uma forma de tentar enfrentá-los e seguir em frente.

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Um dos pilares do filme são os ótimos personagens interpretados com maestria. Andy Samberg mantem um personagem despreocupado, mas que tem medo de enfrentar o que poderia vir no dia seguinte. Ele age de forma amável e que com a dose de humor necessária para esquecer o que está acontecendo. Já Cristin Milioti, emerge de momentos de sua insegurança, para o teor cômico de Samberg e seu personagem. Ela ainda acrescenta doses de imprudência e intensidade que também escondem medos e segredos. Os dois juntos funcionam não como química sexual, mas uma química divertida.

Andy Samberg e Cristin Milioti em Palm Springs

Não podemos esquecer do Roy, um personagem totalmente secundário, mas que foi brilhantemente executado pelo J. K. Simmons. Ele aparentemente louco e movido pela vingança, se mostra um personagem que simplesmente não quer perder o que tem ou o que poderia ter. Ele ensina a aceitar e amar cada momento e tudo o que você possui. Não posso deixar de falar de um easter egg do personagem. Quando Nyles conta sobre ele e como Roy quer vingança, são mostrados flashbacks bem curtos, de varias vezes que Roy “torturou” Nyles. E em um deles, com uma iluminação mais escura e com um ângulo de Câmera Baixa, J.K. Simmons usa a mesma roupa de seu icônico personagem Terence Fletcher (Whiplash), mas dessa vez com um chicote na mão.

J. K. Simmons em Palm Springs
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Palm Springs flui tão bem em seus 90 minutos, graças ao ótimo roteiro de Andy Siara. Ele conseguiu dar uma cara nova e características cativante, mesclando gêneros diferentes e premissas já muito utilizadas. Em Palm Springs temos uma nova visão sobre o loop temporal. O roteiro funciona de forma eficaz e isso permite que o diretor, Max Barbakow, possa conduzir o filme com seus toques pessoais e ampliar os significados e horizontes dos personagens e da história em si. E no final, tudo se encaixa perfeitamente.

Andy Samberg e Andy Siara nos bastidores de Palm Springs

Muitos filmes já tentaram e fizeram o que Palm Springs fez. Porém não com o mesmo resultado, com a carisma e qualidade aqui apresentadas. O filme é belo, nas atuações, na cinematografia, na direção e atuações. É puro, simples e surpreendente.

Ah, mais uma coisa, continue vendo o filme assim que os créditos começarem a subir, pois tem uma cena pós-créditos.

Bom filme!

Qual sua nota para o filme?

“Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior” Uma frase que define muitos e a minha pessoa também. E mais do que isso, um publicitário contador de piadas ruins, apaixonado por café e uma boa cerveja. Uma pessoa excêntrica, com gostos peculiares e mais do que tudo, um fascinado pela 7ª arte.

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